09/04: JORNADA HISTÓRICA EM OURO PRETO COLOCA EM DIA PRINCIPAIS ASSUNTOS QUE AFETAM PROFISSÃO

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-Formação e valorização profissional estiveram na ordem do dia de todas as discussões    
-Farmacêuticos brasileiros são os primeiros trabalhadores do país a entrar no debate do trabalho decente, segundo Organização Internacional do Trabalho (OIT)     

 

Uma feliz coincidência de datas históricas fartamente simbólicas - 40 anos da Fenafar, 175 anos da Escola de Farmácia de Ouro Preto e os 50 anos do golpe Militar - e a firme disposição dos participantes de discutir os rumos da profissão na cidade que é o berço da Farmácia na América Latina transformaram a Jornada: A centenária história da farmácia no Brasil em um evento de grande significado para todos os farmacêuticos brasileiros.

 


Estiveram presentes representantes de 17 sindicatos filiados à Fenafar e mais os sindicatos do Rio de Janeiro e de Belém, como convidados.

 

No debate de sexta-feira, 04/04, o coordenador de Medicamentos Estratégicos do Departamento Assistência Farmacêutica (DAF) do Ministério da Saúde, Luiz Henrique Costa afirmou que o Governo se alinha à Fenafar e ao Conselho Nacional de Saúde (CNS) para fazer avançar o acesso aos medicamentos e ampliar os serviços de Assistência Farmacêutica e lembrou que o Brasil também precisa fazer avançar sua indústria farmacêutica e as tecnologias de produção de medicamentos.

 


“Se antes era (predominante) o conceito de botânica, hoje é a tecnologia dos recombinantes, outra base de conhecimento”, diagnosticou.

 

Ele salientou que se a indústria farmacêutica é forte no complexo industrial mundial, a formação do farmacêutico passa a ser questão crucial. E não poupou críticas ao sistema atual de ensino voltado para os serviços em que a formação é mais barata porque os cursos são basicamente ministrados com quadro, giz e projetor.

 

Luiz Costa sugeriu que a Associação Brasileira de Educação Farmacêutica (Abef) reúna as universidades públicas para fazer esse debate. “Elas precisam ter uma posição", apontou. Diante da enorme quantidade de cursos existentes no país, ele ponderou que os professores universitários de Farmácia carecem de atenção. Segundo ele, é preciso olhar as perspectivas deles na atualidade.

 

A configuração do mercado de trabalho também foi mencionada pelo diretor assim como a forte automatizaçao dos serviços de análises clínicas que reduz o espaço de atuação dos profissionais.

 

“Também acho que é desafio para a Federação (Fenafar), buscar que a residência em Farmácia seja dada de forma extensiva porque a especialização é fundamental, declarou. Conforme Luiz Costa, a prevalência das doenças crônicas como diabetes e câncer, de forma epidêmica, exige a especialização dos profissionais farmacêuticos.



Categoria sai na frente na defesa do trabalho decente

 

A categoria farmacêutica é a primeira, entre todos os trabalhadores brasileiros, a se interessar de forma sistematizada, pela discussão do conceito de trabalho decente. A informação é da Organização Internacional do Trabalho (OIT), repassada durante a Jornada pelo diretor da Fenafar e do Sindicato dos Farmacêuticos do Ceará, Márcio Batista. Desde 2008, o Sindicato vem trabalhando com a perspectiva de maior valorização profissional da categoria.

 

Os anos de reflexão e debates da entidade e associados trouxeram resultados para a luta sindical. “O primeiro ponto para a valorização é que o farmacêutico se enxergue como trabalhador. Não basta ter formação de excelência, que é o mínimo exigido para o profissional”, avaliou Márcio, dizendo que a academia forma para a ação técnica e que o farmacêutico sai da faculdade carente de informação sobre o impacto de sua atividade na sociedade. Ele frisou que desde 1999 a OIT discute o que é trabalho decente e que há 40 anos a Fenafar batalha pelo trabalho digno.

 


Mesmo assim, ele reforça, não haverá avanços se o profissional não se vir como trabalhador. “Nós nos vemos como o doutor que fica no laboratório, no hospital, mas que não discute carga horária exaustiva, não discute porque os filhos não o veem no final de semana”, afirmou. De acordo com o diretor cearense, as mudanças de atitude devem alcançar o movimento estudantil que perdeu sua força atuante. “Tem ação muito menor do que pode ter”, insistiu.

 

Márcio citou alguns pontos do trabalho considerado decente, entre eles oportunidade de emprego adequada, rendimento “que proporcione vida social adequada ao perfil de felicidade” e a jornada, igualmente decente de trabalho, de 30 horas.

 

As informações da OIT são de que mais de 70% da categoria trabalham acima de 48 horas semanais no Brasil. Em resumo, ele disse, o trabalho digno é aquele que proporciona qualidade com liberdade, equidade, segurança e dignidade humana.

 

A busca pelo trabalho menos indigno tem provocado grande desgaste para os farmacêuticos. Segundo o vice-presidente da Fenafar, Rilke Novato Públio, 34,5% dos profissionais trabalham há menos de um ano em farmácias e drogarias.

 

O presidente Ronald Ferreira observou que a luta dos farmacêuticos não está dissociada dos outros trabalhadores brasileiros e que há avanços e retrocessos. A diferença, disse, é que o cenário atual nunca foi tão favorável aos farmacêuticos e de boas perspectivas como hoje, lembrando o crescimento do espaço de interlocução da categoria com o Congresso Nacional.

 

Destacou ainda a luta pela aprovação dos cinco projetos, sendo: o projeto que estabelece a Farmácia como estabelecimento de saúde, com a aprovação da subemenda aglutinativa,  Piso Nacional, Redução de jornada para no máximo 30 horas, Inserção do farmacêutico no SUS e a que cria Carreira Única para o SUS.

 

Estes foram os projetos prioritários pactuados no Fórum Nacional pela Valorização Farmacêutica, que na opinião dele foi um passo fundamental pela unidade dos farmacêuticos em defesa e da valorização da profissão e da saúde pública.

 

Memória da Farmácia ressalta importância histórica e social da profissão  

 

Com o encerramento das atividades no hotel na quinta-feira à noite, a Jornada teve continuidade no prédio da Escola de Farmácia de Ouro Preto que abriga o acervo histórico da faculdade de farmácia, na manhã de sexta-feira (04/04). O curso de graduação foi transferido para o Morro do Cruzeiro, onde já se concentram os outros cursos da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop).

 

Uma visita ao acervo cuidadosamente exposto despertava a curiosidade e a emoção dos farmacêuticos, a começar pelo presidente da Fenafar, Ronald Ferreira. Ele mencionou a sensação comovente de reencontrar as raízes, assim como se reencontra um ente querido.
E ressaltou a importância da memória para a valorização da profissão: “nós somos resultado do que nossos antepassados fizeram. Temos uma responsabilidade absurda porque a sociedade confiou num conjunto de técnicas há centenas de anos”, disse emocionado. A Associação de ex-alunos já tem um projeto pronto para a criação do Museu da Escola de Farmácia.

 

Essa viagem histórica seguiria ricamente documentada com a aula do pesquisador Victor Godoy, professor aposentado de Fitoterapia da Escola e um entusiasta da criação do Museu. “Tenho me dedicado a entender o enigma do farmacêutico e a da profissão”, resumiu.

 

O professor traçou um recorte entre os primórdios na profissão no Brasil e os dias atuais e frisou que a história é cíclica: “Em 22 de abril de 1719 foi realizada uma reunião entre farmacêuticos e médicos para discutir quem deveria prescrever medicamentos”, contou, rindo.

 

No dia 04 de abril de 1839 foi dada a licença para a criação da primeira escola autônoma de Farmácia da América Latina e segunda das Américas, sendo a primeira a instalada no Estado da Fildélfia, nos Estados Unidos.

 

Ainda citando o retorno das mesmas polêmicas envolvendo a profissão ao longo do tempo, o professor Victor lembrou que em 1920 criaram-se 30 ou 40 cursos livres de Farmácia no Brasil sob fortes críticas sobre a expansão descontrolada com riscos para a qualidade do ensino.

 

Segundo ele, num período de quatro anos todos os cursos fecharam ao contrário de hoje em que somente em Minas Gerais estão abertos 68 curso de graduação em Farmácia. No Brasil,são mais de 400.

 

Imprensa Sinfarmig