Reunidos em Brasília na quinta e na sexta-feira (11 e 12/12), a diretoria da Fenafar e os sindicatos filiados fizeram uma profunda e ampla análise das lutas enfrentadas pela categoria em 2014 e que, na avaliação de todos, entrarão para a história da categoria pela sua magnitude e pela relevância das conquistas obtidas.
 

 

Brevemente, o presidente da Fenafar, Ronald Ferreira dos Santos fez uma análise do contexto político nacional, marcado por uma disputa eleitoral – que foi uma das mais acirradas da história recente do país –, e seus impactos na luta em defesa da farmácia estabelecimento de saúde. Essa luta, em 2014, se materializou na construção do Fórum Nacional pela Valorização da Profissão, que construiu a subemenda aglutinativa que deu origem à lei 13.021 e imediatamente em seguida o enfrentamento da MP 653.
 

 

Ronald considera que o posicionamento veemente da Fenafar na defesa de um projeto nacional de desenvolvimento e contra os retrocessos que poderiam significar o retorno das forças políticas que representam a elite econômica e o pensamento neoliberal teve impacto importante para a Fenafar. Muitos setores que não concordaram com essa posição política da Fenafar, começaram a atacar a Federação dizendo que grupos governistas não poderiam ser contra a MP. “Mas a Fenafar manteve o seu compromisso com a aplicação estrita das deliberações primeiro do seu Congresso e posteriormente das suas reuniões de diretoria e conselho de representantes e combateu a Medida Provisória atuando em duas frentes de luta concomitantes e que se complementam – a luta institucional, buscando diálogos e acordos junto ao governo e aos parlamentares tanto da oposição quanto da base para avançar nas formulações e de outro lado uma intensa mobilização da categoria e de outros setores sociais contra os retrocessos que a Medida Provisória e posteriormente o relatório do deputado Manoel Júnior representavam para o direito da população à saúde e, particularmente, para a categoria farmacêutica”, afirmou.
 

 

Passo a passo rumo à vitória
 
O presidente da Fenafar buscou enumerar todos os passos da Fenafar na luta contra a MP. O primeiro foi a batalha para colocar na presidência da Comissão Mista um parlamentar aliado da categoria. Essa negociação resultou na indicação da senadora Vanessa Grazziotin, que teve uma atuação fundamental em todo o processo. O segundo foi a realização das audiências públicas – expediente que raramente ocorre em outras tramitações. As audiências foram uma demanda das entidades que participam do Fórum e encaminhadas pela Senadora.
 

 

Após as audiências, o terceiro passo era conhecer o conteúdo do relatório do deputado Manoel Junior. Ronald explicou que pelo rito da Câmara dos Deputados os relatórios só podem ser apresentados nas reuniões das Comissões. A presidenta da Comissão, a pedido do Fórum, convocou a reunião para que o deputado, então, apresentasse o seu relatório. “Ao tomarmos conhecimento do conteúdo, a sessão foi imediatamente suspensa”.
 

 

A partir daí, o quarto passo foi tentar construir diálogos ganhar apoios na base do governo e, também, na oposição com dois objetivos: um de alterar o relatório e chegar a um acordo que recuperasse o acordo inicialmente firmado e que deu origem à Lei 13021; e o outro era ganhar tempo e impedir que o relatório do Manoel Junior fosse votado. Na reunião, Ronald mostrou documento aprovado no Fórum com as propostas que seriam discutidas com todos (governo, parlamentares e o relator), elencando os pontos considerados pela categoria INEGOCIÁVEIS. Esse documento resultou no voto em separado que se tentou construir para alterar o relatório do deputado Manoel Junior e anular os efeitos da MP 653. No momento que o deputado explicitou que não alteraria seu texto, trabalhamos com o apoio da senadora Vanessa Grazziotin para impedir a convocação da reunião da Comissão Mista até que o prazo para votação se esgotasse e, assim, a MP perdesse sua validade.
 

 

Após narrar todos os acontecimentos, Ronald destacou que “uma lição deste processo é mostrar a força da unidade. Por maiores que sejam as diferenças que temos com o CFF e com a Feifar, foi a construção de um acordo entre propostas e que foram respeitados pelos diversos atores políticos que nos permitiu alcançar as vitórias de 2014: a aprovação da lei e a derrubada da MP 653".
 

 

Convidada a participar da reunião do Conselho de Representantes, a deputada Alice Portugal (PCdoB/BA), farmacêutica e coordenadora da Frente Parlamentar em Defesa da Assistência Farmacêutica também fez uma breve análise da conjuntura e da luta da categoria em 2014.
 

 

A deputada fez uma avaliação dos desdobramentos da disputa eleitoral a partir de 2015. “Teremos apenas 40 deputados oriundos do movimento sindical na Câmara dos Deputados, o que é uma situação agravante para o debate de uma saúde pública voltada para a sociedade brasileira, para a pauta do movimento sindical”.
 

 

Alice chamou a atenção para os condicionantes do momento político atual, no qual o mercado atua para impor seus interesses e sua pauta política para aprisionar o governo. De outro lado, reiterou que é importante compreender a característica de um governo de coalizão. “Vivemos momentos de transição democrática, e temos um governo que para sobreviver precisa fazer alianças, com aliados de centro-esquerda e centro-direita, e até com setores que só sobrevivem estando no governo”.
 

 

Ele exemplificou esse quadro com a apresentação do relatório da Comissão Nacional da Verdade. “Isso é emblemático na cerimônia de ontem, que nós só depois de 50 anos da ditadura tivemos uma lista mínima das pessoas que cometeram crimes contra a humanidade. Então, é neste ambiente que estamos vivendo. Nós não fizemos uma revolução, nós estamos numa transição democrática, com apoio de forças políticas que não querem tanta mudança assim. Os que cobram uma coerência cristalina do governo não percebem essa ambiência de que temos que atuar no binômio unidade e luta, e atuar nessa navalha é arte, é política. Considerar esse contexto é fundamental para entender o momento que estamos vivendo, para conhecer os aliados”, afirmou.
 

 

Alice Portugal disse que o Brasil caminha numa curva ascendente de conquistas sociais. “Estamos no contexto de um caminho democrático, mas ainda participamos de governo de coalizão que precisamos exercitar o binômio unidade e luta. E é assim que se insere o papel da Fenafar na luta em defesa da categoria, que teve coragem de apontar o dedo para aqueles que estavam atuando na contramão dos interesses da categoria. E isso cobrou o seu preço”.
 

 

Na avaliação da parlamentar, “pela primeira vez a categoria apareceu como categoria para o cenário político brasileiro. A realidade é dura. Essa quadra, por si só, ela é vitoriosa como elemento exemplar, político, para a história da categoria farmacêutica. Nós não podemos avaliar pontualmente fatos sem considerar as circunstâncias. A atuação do Conselho Federal foi importante e a construção do Fórum também, porque quem quer ter vitória num governo e num parlamento que é um mix político tem que construir alianças suprapartidárias, senão não passam os nossos interesses. E isso foi muito bem feito. No debate da lei a nossa ação coletiva foi impecável. As organizações empresariais tiveram uma ação agressiva e furiosa. Foi duro. Nós redigimos de próprio punho propostas até chegarmos aquilo. É o ideal, não. Nós conhecemos o ideal. O ideal é que a farmácia fosse uma concessão pública, zoneada. Mas o que tivemos foi fruto da nossa iniciativa e a maior vitória da história da categoria farmacêutica. Nós derrotamos a visão supermercadista”.
 

 

Vetos e MP 653

 

 
“Só soubemos dos vetos e da MP depois que eles foram publicados. Mas depois, fomos buscar as informações e ficamos sabendo que o que eles pediram [o setor varejista] era o veto integral, era vetar a lei. Houve um ministro exigindo o veto integral para a presidenta. Assessores do governo que acompanharam todo o nosso debate a alertaram sobre o que isso significaria. Com a força que nós construímos na negociação, houve resistência para impedir o veto integral da lei. Quem governa, governa em parte, neste processo de coalizão. Foi daí que a presidenta optou pelo veto parcial e veio a MP. Pior que a MP, foi a visão oportunista de determinados segmentos de fazer a imersão na MP para resolver problemas da Anvisa, da agricultura e problemas mal assombrados que o relator [deputado Manoel Junior] tem que vir aqui para explicar”, denunciou Alice Portugal.

 

 
Para a deputada e colega farmacêutica, todo esse processo foi uma vitória. “Não foi completa, porque temos que continuar lutando em torno de muitos desafios da farmácia brasileira. A luta continua na judicialização, na fiscalização, continua na busca de negociação e na discussão do que vamos fazer sobre isso. Temos que definir se vamos emendar a lei, se vamos buscar portarias e decretos para regulamentar a lei dando prazos para que as pequenas farmácias se adequem”.

 

 
Alice também foi muito direta ao comentar tentativas de desconstruir toda essa ação vitoriosa da categoria. “Tergiversações sobre o tema dentro da categoria farmacêutica tem que ser respondidas com uma pergunta, a quem interessa desconstruir as lideranças da categoria farmacêutica? A quem serve desconstruir a Fenafar, que é a ponta de lança, que desde o primeiro momento, quando havia uma postura estática do CFF, apontava o dedo para os que tentavam atacar a categoria e que percorreu o país para construir os sindicatos? A quem interessa desconstruir a unidade da categoria?”, questionou. E, em seguida, afirmou: “A unidade é uma necessidade, porque os patrões não se dividem. O cidadão bem intencionado, achando que está fazendo um papel de esquerda, acaba fazendo a lição de casa que está sendo imposta pelo capital, pela direita. A divisão só interessa aos nossos inimigos reais e da profissão farmacêutica, que é estratégica para a soberania nacional, que luta por interesses corporativos legítimos e interesses da sociedade, porque lutar por salários dignos e valorização profissional é legítimo. Desconstruir essa construção plural que vocês têm é um erro. Foi essa agregação que nos levou a chegar até aqui. Se a gente quebrar essa aliança que nos une, essa unidade, nós vamos correr muito risco”.
 

 

O debate sobre as lutas travadas em 2014 contou com ampla participação de todos os presentes, com mais de 30 pessoas intervindo e dando sua contribuição para construir uma avaliação profunda e coletiva de todo o processo. A resultante dessa rica discussão foi reafirmar o inegável protagonismo da Federação para a aprovação da Lei 13.021, que foi um avanço incontestável para a categoria.
 

 

Muitos apontaram a necessidade de se intensificar, cada vez mais, a comunicação da Fenafar com sindicatos, para que diante dos desafios e da dinâmica das lutas que estão sendo enfrentadas todos estejam em condições de enfrentar os debates com a categoria e com outros setores da sociedade.

 

Por Renata Mielli, jornalista da Fenafar - de Brasília

À abertura da 7ª Jornada da Confederação Nacional dos Trabalhadores Liberais Universitários Regulamentados (CNTU), na tarde de sexta-feira (12/12), no auditório do SEESP, na Capital paulista, o presidente da confederação, Murilo Celso de Campos Pinheiro, fez uma breve retrospectiva das ações da entidade em 2014, destacando, por exemplo, o debate realizado com ex-ministros e atual titular do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) para a valorização desse órgão governamental, assim como vários eventos em defesa dos profissionais liberais.


 “A CNTU prova que caminha ao lado do povo brasileiro”, comemorou, ao mesmo tempo em que falou da criação de 15 novos departamentos da entidade que vão ajudar nessa política: alimentação saudável, bioética e direitos humanos, Brasil 2022, cidades e mobilidade, ciência e tecnologia e inovação, conjuntura econômica, cooperativismo, educação continuada, formação sindical, jovem profissional, meio ambiente e Amazônia, mulheres, qualidade na saúde pública, relações internacionais e valorização profissional.
 

Na sequência, a vice-presidente da entidade, Gilda Almeida, fez o lançamento da revista “A CNTU e a luta das mulheres”, que apresenta diretrizes para uma política de gênero no sindicalismo de profissionais universitários. Ela ressaltou que a publicação foi uma construção coletiva com a participação de “várias mãos de mulheres e homens” e pretende ajudar, inclusive, o debate na sociedade. E destacou: “Sem a mulher no campo do trabalho, da saúde e da política não é possível transformar essa sociedade para termos mais justiça e igualdade.”
 

Almeida lembrou que o trabalho, que culminou com a revista, começou na comemoração do dia 8 de março de 2013 quando foi constituído o Coletivo de Mulheres da entidade, da qual é coordenadora. “Consolidamos o compromisso da nossa entidade com a luta pela igualdade de gênero e pela emancipação feminina e o combate a todas as formas de violência e discriminação”, observou.
 

O deputado federal Arnaldo Jardim (PPS-SP), presente à abertura, parabenizou toda trajetória recente da CNTU que, em tão pouco tempo de existência, deu contribuições valorosas aos grandes debates do País, desde energia, ciência e tecnologia, alimentação e meio ambiente, e conclamou aos profissionais liberais que constituem a entidade – engenheiros, economistas, farmacêuticos, odontologistas, nutricionistas e médicos – a ajudarem a pensar os grandes desafios do País em 2015. “Vamos ter um ano difícil em termos de reorganização da economia que a CNTU deve contribuir.” E apresentou uma sugestão para que a confederação se engaje numa campanha contra o desperdício no consumo de água, energia e alimentos. Jardim, todavia, disse que não estava reduzindo os problemas enfrentados, por exemplo, na crise dos recursos hídricos do Estado de São Paulo que precisam também de correções estruturais.
 

Participaram da mesa de abertura da 7ª Jornada CNTU: os presidentes das federações dos Odontologistas, José Ferreira Campos Sobrinho, dos Nutricionistas, Ernane Silveira Rosas, e do Sindicato dos Economistas no Estado de São Paulo, Pedro Afonso Gomes e os diretores das federações dos farmacêuticos, Célia Chaves, e dos engenheiros, José Ailton Pacheco.

 

Fonte: CNTU
Publicado em 15/12/2014 no site da Fenafar

Mais de 1.500 pessoas devem participar das discussões da 4° Conferência Nacional da Saúde do Trabalhador entre hoje (15) e a próxima quinta-feira (18), em Brasília. Na pauta estão temas como o financiamento à saúde, a qualificação do atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS) para acidentes de trabalho e a efetivação da Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora. A última conferência ocorreu há nove anos, em 2005.

O coordenador-geral da conferência, Geordeci de Souza, disse que o Brasil é o quarto país onde mais morrem empregados em local de trabalho. Por isso, acrescentou, é preciso mobilizar os trabalhadores e a sociedade para as discussões sobre o tema.

A abertura da 4° Conferência Nacional da Saúde do Trabalhador será hoje, às 19h30. Entre os ítens que serão debatidos durante os quatro dias do encontro, Geordeci cita o debate sobre o fortalecimento da intersetorialidade entre os órgãos públicos que atendem o trabalhador acidentado, a perícia médica e o fator previdenciário.

“Temos alguns gargalos que é preciso solucionar. Quando o trabalhador se acidenta ele é atendido no SUS, se precisar de afastamento, irá para a Previdência Social e quem fiscaliza o local de trabalho é o Ministério do Trabalho. Isso envolve três ministérios e eles dialogam muito pouco criando situações que geram demora e gastos para os cofres públicos”, disse Geordeci acrescentando que a intenção é que a conferência contribua para acelerar as soluções.

A conferência discutirá propostas como incluir no currículo escolar o debate sobre a saúde do trabalhador e a rediscussão dos Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest). Esses centros têm como atribuição implementar ações que melhorem as condições de trabalho e a qualidade de vida do profissional por meio da prevenção e da vigilância.

“Temos propostas para ampliar os Cerests e ter um por regional de saúde. Hoje temos 210 Cerests no Brasil e passaríamos a ter 467. Tem também a questão do financiamento que deve ser de acordo com a população economicamente ativa que está naquela região de abrangência do centro. Hoje eles recebem o mesmo valor. Precisamos, ainda, rever a gestão desses centros”, explicou Geordeci de Souza que é representante da Central Única dos Trabalhadores (CUT), no Conselho Nacional de Saúde.

Os participantes querem que a conferência ocorra a cada quatro anos, de acordo com o coordenador-geral. Ao final do encontro será produzido um documento com as propostas aprovadas que serão apresentadas aos gestores da área de saúde.

Fonte: Agência Brasil – Yara Aquino

Erradicado no fim da década de 1950, o mosquito Aedes aegypti pode ter sido reintroduzido no Brasil não apenas uma, mas duas vezes; seguindo caminhos diferentes em cada uma delas. A conclusão é de um estudo de pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, publicado recentemente na revista científica Plos Neglected Tropical Diseases. Analisando a genética das populações do mosquito da dengue no país, os cientistas observaram que os insetos encontrados entre o Nordeste e o Sudeste parecem ser oriundos do Caribe. Já aqueles do Norte seriam originários de outra parte das Américas, na região compreendida entre a Venezuela e o sudeste dos Estados Unidos.

 


A pesquisa foi realizada a partir da análise de trechos específicos do DNA de cerca de 400 insetos capturados em 11 cidades brasileiras, das regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste, além de sua comparação com mais de 300 mosquitos de oito localidades estrangeiras. “Verificamos que os Aedes aegypti do Brasil estão divididos em dois grandes grupos genéticos e, pela comparação com mosquitos de outros países, identificamos as duas possíveis fontes de migração dos insetos para o país”, diz o geneticista Fernando Monteiro, um dos autores do estudo e pesquisador do Laboratório de Epidemiologia e Sistemática Molecular do IOC.

 

Colaborador e autor sênior do estudo, Jeffrey Powell, da Universidade de Yale, ressalta a importância de identificar as possíveis rotas de entrada do A. aegypti no Brasil, a partir de outros países. “No caso da Região Norte, parece provável que o movimento de pessoas e mercadorias por terra, em estradas ou ferrovias, levou à reintrodução dos mosquitos. Já no Sudeste, a maior chance é de que isso tenha ocorrido por meio do comércio por barco ou avião. Assim, se houver novas tentativas de erradicação, esses dados apontam caminhos para prevenir mais uma reintrodução desses insetos”, declara o cientista.

 


Conhecer a origem e a distribuição dos diferentes grupos de A. aegypti no Brasil é um dado relevante para estratégias de combate ao inseto. Também autora da pesquisa, a geneticista Renata Schama, do Laboratório de Biologia Computacional e Sistemas do IOC, lembra que a resistência a inseticidas é uma característica genética que pode se espalhar mais rapidamente dentro de um mesmo grupo de insetos. “Por exemplo, se mosquitos do nordeste desenvolverem resistência para um determinado produto, podemos imaginar que esta característica vai se disseminar logo até o sudeste, porque os Aedes aegypti destas duas regiões fazem parte de um grande grupo geneticamente próximo, dentro do qual provavelmente existe migração de mosquitos”, explica.

 

Fronteiras suscetíveis


Além de caracterizar as populações de A. aegypti do país, o estudo reforçou a hipótese de que a erradicação promovida no passado foi realmente eficiente. Segundo Monteiro, a possibilidade de uma eliminação incompleta, seguida pela expansão a partir de um pequeno número de insetos sobreviventes em refúgios, parece pouco provável a partir das características genéticas observadas nos insetos estudados. “Quando se realiza uma campanha de erradicação, muitos mosquitos são mortos e, consequentemente, a variabilidade genética das populações se reduz drasticamente. No Brasil, observamos um alto grau de variabilidade genética dentro de cada grupo de insetos, semelhante ao de países que nunca passaram por esse tipo de ação de controle”, afirma, acrescentando que a própria distribuição dos grupos de A. aegypti no Brasil também aponta para a reintrodução a partir de outros países. “Se os mosquitos tivessem sobrevivido em pequena quantidade em diferentes refúgios e depois se espalhado novamente, deveríamos encontrar um número maior de grupos genéticos – pobres em variabilidade – e não apenas duas grandes populações de insetos no país”, diz.

 

Iniciado em 1947, o programa para erradicar o Aedes aegypti no país foi declarado um sucesso pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1958. No entanto, nos anos 1970, os insetos voltaram a ser capturados em território brasileiro. Os especialistas acreditam que a reintrodução dos mosquitos ocorreu devido à diminuição das atividades de controle, que eram baseadas principalmente no uso de inseticidas. Na época, o foco do combate ao A. aegypti visava evitar os casos urbanos de febre amarela, que eram numerosos até a década de 1940. Embora a campanha tenha sido eficaz neste sentido, quando o vírus da dengue chegou ao Brasil, em 1982, encontrou um ambiente propício para a sua disseminação. Com os mosquitos transmissores espalhados por todo o território nacional, as epidemias da doença se tornaram frequentes.

 

Aedes: fácil proliferação

Segundo a OMS, cerca de 2,5 bilhões de pessoas – aproximadamente 40% da população do planeta – vivem hoje em áreas infestadas pelo Aedes, com risco de transmissão da dengue. Especialista em genética evolutiva, Powell avalia que, como espécie, o A. aegypti é altamente capaz de se espalhar e sobreviver. “Populações com alta variabilidade genética podem se adaptar a muitos tipos dehabitat, se alimentar de diversas formas, ser mais resistentes à seca ou a temperaturas extremas. Quanto mais variável geneticamente, mais difícil é controlar ou eliminar uma espécie. A resistência a inseticidas evolui mais rapidamente em populações com mais variação genética, assim como a capacidade de adaptação a mudanças climáticas”, afirma o cientista.

 

Atualmente, a disseminação da resistência aos inseticidas é um dos fatores que dificultam o combate ao mosquito e, de acordo com Renata, essa situação torna ainda mais importante o engajamento da população para evitar a proliferação do inseto. “O Aedes aegypti se espalhou pelo mundo e, em todos os países, a resistência aos inseticidas aumenta rapidamente. Quando um novo produto começa a ser utilizado, em seguida os mosquitos se tornam capazes de tolerá-lo. Por isso, o controle da dengue depende, hoje, basicamente da conscientização da população para eliminar os depósitos de água parada, que podem se tornar focos de reprodução do inseto”, destaca.

 

Além de transmitir os vírus da dengue e da febre amarela, o Aedes aegypti também é vetor do vírus causador da febre chikungunya. Comum na Ásia, a doença chegou ao Caribe no final do ano passado e já provoca epidemias na Bahia e no Amapá, com mais de 1,3 mil casos registrados no Brasil, segundo o Ministério da Saúde.

 

 

Clique aqui para acessar o estudo.

 

Fonte: Agência Fiocruz de Notícias - Maíra Menezes

Mais Artigos...